Bicudo-da-cana (Sphenophorus levis)
Sphenophorus levis é conhecido popularmente como bicudo-da-cana, bicudo-das-raízes ou gorgulho-da-cana. Trata-se de uma praga de hábito subterrâneo e grande relevância econômica, associada principalmente à cana-de-açúcar, onde provoca danos severos e persistentes ao sistema radicular e à base dos colmos.
Características e Mecanismo de Ação
Sphenophorus levis pertence à ordem Coleoptera e à família Curculionidae. O adulto é um besouro de coloração escura, variando do marrom ao preto, corpo alongado e rostro bem desenvolvido, característica típica dos gorgulhos. Mede cerca de 10 a 15 mm e apresenta comportamento discreto, com maior atividade no período noturno.
Embora os adultos também se alimentem da planta, os principais danos são causados pelas larvas. As larvas são ápodes, de coloração branco-creme, com cabeça marrom e corpo curvado, vivendo exclusivamente no interior do solo e da base da planta. Após a eclosão, penetram no rizoma, nas raízes ou no colo da cana, onde passam a se alimentar dos tecidos internos.
O mecanismo de ação da praga está baseado na escavação de galerias internas, que comprometem a condução de água e nutrientes, reduzem a estabilidade da planta e favorecem a entrada de patógenos do solo. O ataque ocorre de forma contínua e silenciosa, dificultando a identificação precoce da infestação e favorecendo a disseminação da praga no canavial.
Sintomas da praga
Os sintomas associados ao ataque de Sphenophorus levis são geralmente tardios e se manifestam quando o sistema radicular já se encontra bastante comprometido. Inicialmente, observa-se redução do vigor das plantas, com crescimento irregular e coloração menos intensa das folhas.
Com o avanço da infestação, tornam-se evidentes sintomas como murcha frequente, mesmo em solos com boa umidade, além de amarelecimento progressivo e secamento da parte aérea. Em áreas mais afetadas, ocorre morte de perfilhos, falhas no estande e redução significativa da brotação em soqueiras.
Ao seccionar a base dos colmos ou o rizoma, é comum identificar galerias internas, tecidos escurecidos e, em alguns casos, presença de larvas ou pupas. A ocorrência em reboleiras é característica, indicando focos ativos da praga no campo.
Ciclo de vida
O ciclo de vida de Sphenophorus levis é relativamente longo e pode variar de 120 a 180 dias, dependendo das condições climáticas e do tipo de solo. Esse ciclo prolongado contribui para a dificuldade de manejo da praga.
A fêmea realiza a oviposição no solo, próxima à base das plantas ou em fendas do rizoma. Os ovos eclodem após algumas semanas, dando origem às larvas, que rapidamente penetram nos tecidos subterrâneos da planta hospedeira.
A fase larval é a mais longa e responsável pelos principais danos. Durante esse período, a larva se alimenta intensamente, ampliando as galerias internas. Após completar o desenvolvimento, ocorre a pupação no solo ou no interior da planta. O adulto emerge posteriormente, permanecendo no campo e reiniciando o ciclo reprodutivo.
Em áreas com cana soca e presença contínua da cultura, podem ocorrer gerações sobrepostas, mantendo a praga ativa durante grande parte do ano.
Principais Culturas afetadas
Sphenophorus levis apresenta forte preferência por gramíneas cultivadas, especialmente aquelas com sistema radicular volumoso. As culturas mais afetadas são:
| Cultura | Região afetada | Impacto causado |
|---|---|---|
| Cana-de-açúcar | Centro-Sul (SP, MG, PR, MS, GO) | Larvas perfuram rizomas e colmos basais, causam morte de perfilhos, falhas de estande, queda de produtividade e redução da longevidade do canavial. |
| Cana-energia / cana-forrageira | Regiões canavieiras do Centro-Sul | Danos contínuos no sistema radicular e rizomas reduzem vigor, perfilhamento e produção de biomassa. |
| Soqueiras velhas (ambiente de cultivo) | Principalmente SP e estados adjacentes | Áreas infestadas mantêm populações elevadas; prejuízos acumulados aumentam custos de manejo e antecipam a reforma do canavial. |
| Pastagens | Centro-Sul | Ataques ao sistema radicular reduzem vigor, causam falhas de cobertura e favorecem degradação da pastagem em áreas próximas a canaviais infestados. |
| Milho (Zea mays) | Centro-Sul, áreas em rotação com cana | Larvas podem danificar a base do colmo e raízes, causando plantas fracas, tombamento e perdas localizadas de produtividade. |
Danos causados à Agricultura
Os danos causados por Sphenophorus levis são significativos e cumulativos, afetando diretamente a produtividade e a longevidade do canavial. A destruição do sistema radicular e do rizoma reduz a capacidade de absorção de água e nutrientes, resultando em plantas menos vigorosas e com menor potencial produtivo.
Na cana-de-açúcar, os prejuízos incluem queda no número de colmos por hectare, redução do peso individual dos colmos e menor longevidade das soqueiras, exigindo reforma antecipada do canavial. Além disso, as galerias abertas favorecem a infecção por fungos e bactérias do solo, ampliando os danos fisiológicos.
Outro impacto relevante é o aumento dos custos de manejo, uma vez que a praga apresenta difícil controle e pode permanecer ativa no solo por vários ciclos. A distribuição em reboleiras dificulta o controle uniforme e favorece a reinfestação de áreas adjacentes.
Agentes biológicos utilizados no combate
O controle biológico de Sphenophorus levis é uma estratégia fundamental dentro do manejo integrado, especialmente em função do hábito subterrâneo da praga e das limitações do controle químico.
- Fungos entomopatogênicos (Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae)
Atuam por contato, infectando larvas e adultos presentes no solo e na base das plantas. Apresentam melhor desempenho em solos com boa umidade e matéria orgânica. - Nematóides entomopatogênicos (Steinernema spp. e Heterorhabditis spp.)
Penetram nas larvas por aberturas naturais e liberam bactérias simbióticas que causam a morte do inseto. São altamente adaptados ao ambiente subterrâneo e eficazes contra estágios larvais. - Bactérias entomopatogênicas
Utilizadas como complemento no manejo, interferem na sobrevivência das larvas e contribuem para a redução populacional ao longo do tempo. - Inimigos naturais do solo
Predadores e microrganismos presentes em solos biologicamente equilibrados auxiliam na regulação natural da praga, reduzindo a pressão populacional.
A integração do controle biológico com práticas culturais, como eliminação de soqueiras infestadas, preparo adequado do solo e monitoramento contínuo, é essencial para reduzir os danos causados por Sphenophorus levis e garantir a sustentabilidade do sistema produtivo
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