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Efeitos Evolutivos das Tecnologias de Modificação Genética de plantas cultivadas: Resistência de Pragas e Plantas Daninhas, Áreas de Refúgio e Coevolução

Introdução

As tecnologias genéticas aplicadas à agricultura, principalmente as plantas Bt e RR, respectivamente modificadas para secretarem proteínas inseticidas originalmente encontradas em Bacillus thuringiensis e para adquirirem resistência ao herbicida sistêmico e multiespectral glifosato (RoundUp Ready) têm transformado o manejo de pragas e plantas daninhas. No entanto, a teoria da evolução revela implicações importantes sobre a resistência gerada por essas tecnologias.

Fundamentos Evolutivos e Pressão Seletiva

A seleção natural explica como organismos se adaptam ao ambiente. Plantas Bt ou RR criam pressões seletivas intensas sobre pragas e plantas daninhas, acelerando a evolução de resistência.

Plantas Bt expressam proteínas inseticidas como Cry1Ac. Pragas evoluem resistência por mutações em receptores ou mecanismos de detoxificação. Assim, insetos resistentes surgem após várias gerações expostas à mesma proteína.

Analogamente, o uso contínuo e exclusivo de glifosato em áreas com plantas RR seleciona plantas daninhas resistentes ao longo dos anos, mediante mutações no gene EPSPS ou aumento de sua expressão.

Áreas de Refúgio e Diluição Genética

No caso de plantas Bt, recomenda-se áreas de refúgio para protelar o desenvolvimento de populações resistentes. Trata-se de parcelas com plantas não Bt que permitem a sobrevivência de pragas suscetíveis.

Essas pragas se cruzamcom resistentes, gerando descendentes heterozigotos que ainda são afetados pela Bt, retardando a fixação da resistência.

Recomenda-se que 20% da área seja refúgio, próxima à lavoura Bt.

Contestações válidas a essa estratégia:

  • Seria necessário avisar aos indivíduos suscetíveis quais áreas são seguras para eles, caso contrário consumiriam as parcelas Bt e pereceriam!
  • Ainda que bem conduzida, ela implica que 100% da área está disponível para a população resistente, enquanto apenas 20% é segura para a população suscetível, o que proporciona uma vantagem competitiva muito substancial, que certamente leva ao rápido predomínio das populações com resistência induzida.

Coevolução: Bt Natural vs. Bt Transgênico

O Bacillus thuringiensis coevolui com as pragas, produzindo toxinas variadas e adaptando-se rapidamente. Considerando a velocidade de reprodução, e portanto, de replicação de mutações benéficas, é possível presumir que a bactéria sempre estará em vantagem competitiva em relação aos insetos que atava.

O gene Bt inserido em plantas cultivadas expressa proteínas fixas e idênticas, sem capacidade de adaptação, tornando-se alvo fixo.

A pressão seletiva constante favorece a resistência acelerada.

Conclusão

Os efeitos da teoria da evolução, totalmente previsíveis, comprovam-se dia após dia nos campos cultivados com plantas Bt ou RR, com o aparecimento de pragas e plantas daninhas resistentes, tornando necessário lançar mão de alternativas de controle semelhantes às adotadas antes da introdução dessas tecnologias transgênicas, que, no limite, tornam-se inúteis.

A lição que fica é que, eventualmente, deveríamos usar tecnologias transgênicas em outras frentes que não a de controlefitossanitário. Que tal inserirmos em nossas plantas cultivadas genes que melhorem aspectos nutricionais dos alimentos, o desempenho de nossas plantas cultivadas frente a estresses abióticos, cada vez mais comuns, ou ainda que visem diretamente o aumento de produtividade? Enfim, modificações genéticas que não se contraponham à capacidade dos organismos vivos de se adaptarem às novas pressões ambientais.

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Desenvolvimento Agronômico da Native Produtos Orgânicos/Usina São Francisco desde 1999. Engenheiro agrônomo (ESALQ/USP, 1985) com pós-graduação em engenharia econômica (1991), atuou como pesquisador na Copersucar e em usinas sucroalcooleiras antes de ingressar no Grupo Balbo em 1995. A Usina São Francisco, pioneira na produção de açúcar orgânico no Brasil, é líder global no setor, com exportação para 70 países. Seu Projeto Cana Verde — desenvolvido em 20 anos de pesquisa — elimina queimadas, agroquímicos e fertilizantes sintéticos, promovendo controle biológico, reciclagem de nutrientes e biodiversidade. Os resultados incluem maior produtividade, recuperação de recursos hídricos e fauna, além de um processo carbono neutro e socialmente justo, integrando sustentabilidade à produção industrial.

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