blank

A Descoberta do Bacillus thuringiensis: Um Marco na Biotecnologia Agrícola

O Bacillus thuringiensis (Bt) é uma bactéria entomopatogênica que revolucionou o controle biológico de pragas na agricultura. Sua descoberta é marcada por dois momentos históricos distintos: o primeiro em 1901, pelo biólogo japonês Shigetane Ishiwatari, e o segundo em 1911, pelo microbiologista alemão Ernst Berliner.

A Doença do Colapso Súbito e a Descoberta Inicial

No início do século XX, a indústria da seda era uma atividade econômica vital no Japão. No entanto, uma doença misteriosa estava dizimando larvas do bicho-da-seda (Bombyx mori), causando prejuízos severos. Essa enfermidade, conhecida como doença do colapso súbito ou sotto disease, provocava a morte repentina das larvas, que apresentavam coloração escurecida, aspecto flácido e colapsavam rapidamente após a infecção.

Em 1901, o biólogo japonês Shigetane Ishiwatari investigou essa mortalidade em massa e conseguiu isolar uma bactéria presente nas larvas infectadas. Ele identificou o microrganismo como o agente causador da doença e o nomeou inicialmente como Bacillus sotto, em referência à enfermidade. Essa descoberta foi um marco na microbiologia entomológica, embora tenha permanecido relativamente desconhecida fora do Japão por algum tempo.

Redescoberta e Nomeação por Berliner

Em 1911, o microbiologista alemão Ernst Berliner isolou a mesma bactéria em larvas da traça-da-farinha na região de Turíngia, Alemanha. Ele observou estruturas cristalinas dentro da bactéria, que mais tarde seriam identificadas como proteínas Cry, responsáveis pela ação inseticida altamente específica do Bt. Berliner renomeou o microrganismo como Bacillus thuringiensis, em homenagem à localidade onde foi encontrado.

Características Biológicas

O Bt é uma bactéria gram-positiva, aeróbica e esporulante, encontrada naturalmente em solos de todos os continentes. Sua principal característica é a produção de proteínas cristalinas durante a esporulação, conhecidas como proteínas Cry, que possuem ação inseticida específica contra diversas ordens de insetos, como Lepidoptera, Coleoptera e Diptera.

Essas proteínas, ao serem ingeridas por larvas de insetos, são ativadas no trato digestivo alcalino dos mesmos, causando paralisia intestinal e morte por inanição. Além das Cry, o Bt também produz proteínas vegetativas inseticidas (VIP), que ampliam seu espectro de ação.

Bacillus thuringiensis BioPesticidas destaque SEO A Descoberta do Bacillus thuringiensis: Um Marco na Biotecnologia Agrícola

Aplicações Agrícolas

Desde 1938, o Bt começou a ser utilizado como bioinseticida na França, e posteriormente nos Estados Unidos na década de 1950. Com o avanço da biotecnologia, genes do Bt foram isolados e inseridos em culturas agrícolas como milho, soja, algodão e cana-de-açúcar, criando plantas transgênicas resistentes a pragas. Essas plantas Bt produzem as toxinas Cry diretamente, reduzindo a necessidade de aplicação de defensivos químicos.

Importância Atual

Hoje, o Bt representa cerca de 90% da produção mundial de bioinseticidas. Sua utilização é considerada segura para humanos, animais vertebrados e o meio ambiente, sendo amplamente empregada inclusive na agricultura orgânica. Além disso, a diversidade genética entre os isolados de Bt permite o desenvolvimento contínuo de novas formulações para o controle de pragas específicas.

Conclusão

A descoberta do Bacillus thuringiensis é um exemplo notável de como a ciência pode transformar práticas agrícolas, promovendo sustentabilidade, segurança alimentar e inovação. De um agente patogênico de larvas a uma ferramenta essencial na agricultura moderna, o Bt continua sendo objeto de estudo e desenvolvimento, com potencial ainda maior para o futuro.

Share this content:

Avatar photo

Desenvolvimento Agronômico da Native Produtos Orgânicos/Usina São Francisco desde 1999. Engenheiro agrônomo (ESALQ/USP, 1985) com pós-graduação em engenharia econômica (1991), atuou como pesquisador na Copersucar e em usinas sucroalcooleiras antes de ingressar no Grupo Balbo em 1995. A Usina São Francisco, pioneira na produção de açúcar orgânico no Brasil, é líder global no setor, com exportação para 70 países. Seu Projeto Cana Verde — desenvolvido em 20 anos de pesquisa — elimina queimadas, agroquímicos e fertilizantes sintéticos, promovendo controle biológico, reciclagem de nutrientes e biodiversidade. Os resultados incluem maior produtividade, recuperação de recursos hídricos e fauna, além de um processo carbono neutro e socialmente justo, integrando sustentabilidade à produção industrial.

Publicar comentário