Ácaro da erinose da lichia (Aceria litchii)
Nomes populares
O Aceria litchii é conhecido principalmente como ácaro da erinose da lichia ou ácaro da galha da lichia. Em algumas regiões produtoras, é chamado apenas de “erinose”, nome derivado da aparência típica das deformações que provoca nas folhas das plantas infestadas.
Características e Mecanismo de Ação
O Aceria litchii é um ácaro microscópico, pertencente à família Eriophyidae. Seu corpo é alongado e cilíndrico, com apenas dois pares de pernas localizados na parte anterior, característica marcante desse grupo. Essa morfologia reduzida e o tamanho diminuto dificultam a detecção a olho nu, exigindo o uso de lupa ou microscópio para identificação precisa.
Esse ácaro se instala nas folhas jovens, principalmente na face inferior, onde perfura as células epidérmicas para se alimentar da seiva. A sucção contínua desencadeia uma reação fisiológica na planta, que forma uma estrutura conhecida como erinose — uma espécie de tecido felpudo resultante da hipertrofia celular. Esse fenômeno é tanto uma resposta de defesa da planta quanto um ambiente favorável à multiplicação do ácaro, que se abriga e se reproduz protegido ali dentro.
O mecanismo de ação do Aceria litchii está intimamente ligado à sua capacidade de induzir alterações celulares e modificar a fisiologia do tecido vegetal. Essa indução causa desequilíbrios no crescimento das folhas, reduzindo a fotossíntese e comprometendo o desenvolvimento da planta hospedeira.
Sintomas da praga
Os sintomas aparecem inicialmente nas folhas novas, com manchas salientes e esverdeadas que evoluem para uma coloração marrom-avermelhada. À medida que a infestação progride, surgem galhas e protuberâncias que deformam as folhas, tornando-as espessas e enrugadas.

Com o tempo, o tecido afetado seca e se torna áspero e quebradiço, limitando a expansão foliar. Em ataques severos, a planta apresenta redução no crescimento, abortamento de flores e frutos, além de queda prematura das folhas.
Os sintomas podem ser confundidos com danos de outras pragas ou doenças, mas a presença da textura aveludada típica na parte inferior das folhas — a erinose — é um indicativo claro da ação do Aceria litchii.
Ciclo de vida
O ciclo de vida do ácaro da erinose é rápido e altamente dependente das condições climáticas.
A reprodução é asexuada, com as fêmeas colocando os ovos diretamente nas áreas protegidas das folhas. Os ovos são esféricos, translúcidos e minúsculos. Após a eclosão, surgem as larvas, que passam por duas fases ninfais antes de atingir a fase adulta.
Em temperaturas elevadas e com alta umidade, o ciclo completo pode durar menos de 15 dias, o que favorece múltiplas gerações ao longo do ano. Durante períodos desfavoráveis, como temperaturas muito baixas ou falta de brotações, o ácaro pode permanecer em estado de dormência nas gemas vegetativas ou sob as escamas das brotações novas, retomando a atividade assim que as condições se tornam propícias.
Essa capacidade de permanecer abrigado e se multiplicar rapidamente explica a dificuldade de controle e o alto potencial de disseminação da praga em pomares comerciais.
Principais Culturas Afetadas
Embora o nome popular esteja associado à lichia, o Aceria litchii pode afetar outras espécies de forma secundária, especialmente quando há plantas próximas relacionadas botânica ou fisiologicamente. Entre as culturas mais suscetíveis ou registradas com ocorrência estão:
- Lichia (Litchi chinensis) – principal hospedeira e de maior relevância econômica.
- Longan (Dimocarpus longan) – planta próxima à lichia, também da família Sapindaceae.
- Rambutã (Nephelium lappaceum) – apresenta sintomas semelhantes nas folhas jovens.
- Mamoncillo (Melicoccus bijugatus) – infestação ocasional em ambientes tropicais úmidos.
- Guaraná (Paullinia cupana) – registros limitados, mas com potencial de ataque em brotações novas.
- Acerola (Malpighia emarginata) – suscetível em condições de alta umidade e temperaturas elevadas.
- Pitanga (Eugenia uniflora) – ocorrência esporádica em regiões próximas a pomares de lichia.
- Jambolão (Syzygium cumini) – pode hospedar o ácaro sem apresentar sintomas severos.
- Carambola (Averrhoa carambola) – relatos de associação marginal em áreas tropicais.
- Cajá-manga (Spondias dulcis) – possível hospedeiro alternativo em sistemas diversificados.
Embora o nível de dano varie, o controle em áreas onde há diferentes espécies hospedeiras requer monitoramento conjunto para evitar a reinfestação cruzada entre plantas.
Danos causados à Agricultura
Os danos diretos causados pelo Aceria litchii resultam da redução da área foliar ativa e da diminuição da taxa fotossintética, comprometendo o crescimento vegetativo e o rendimento produtivo. A desfolha precoce e a má formação dos brotos afetam o florescimento e, consequentemente, a frutificação.
Além dos prejuízos fisiológicos, a infestação severa altera a aparência dos frutos, tornando-os menos atraentes comercialmente. Em alguns casos, há deformações no pedúnculo e no cálice floral, o que pode levar ao abortamento dos frutos ainda no estágio inicial de desenvolvimento.
Outro fator crítico é o impacto sobre o manejo fitossanitário: o ácaro se esconde em locais de difícil acesso e resiste a pulverizações superficiais, exigindo estratégias integradas de controle. Em pomares comerciais, o custo adicional com inspeções, monitoramento e tratamentos pode elevar significativamente o custo de produção.
A praga também representa um risco fitossanitário internacional, pois o transporte de mudas e frutos contaminados é uma das principais vias de disseminação. Por isso, muitos países impõem restrições de importação para material vegetal oriundo de regiões com histórico da praga.
Agentes biológicos utilizados no combate
O manejo biológico do Aceria litchii vem ganhando destaque como alternativa sustentável aos métodos químicos convencionais. Diversos inimigos naturais têm mostrado eficiência no controle populacional da praga, especialmente em ambientes com vegetação diversificada e manejo equilibrado.
Entre os principais agentes biológicos observados estão:
- Ácaros predadores (famílias Phytoseiidae e Stigmaeidae)
São os principais controladores naturais do Aceria litchii. Alimentam-se de ovos, larvas e adultos, reduzindo o crescimento populacional da praga. Sua eficiência depende da manutenção de abrigo e disponibilidade de alimento alternativo no pomar. - Fungos entomopatogênicos (como Beauveria bassiana e Hirsutella thompsonii)
Atuam infectando os ácaros por contato, penetrando na cutícula e causando a morte do hospedeiro. São utilizados sob condições de alta umidade e temperatura moderada, sendo compatíveis com o manejo integrado de pragas. - Insetos generalistas predadores (como Chrysoperla spp. e Orius spp.)
Embora não sejam específicos para ácaros, esses predadores podem auxiliar no equilíbrio ecológico, especialmente quando há surtos populacionais em brotações jovens.
O uso combinado de agentes biológicos com práticas culturais — como a poda de ramos infestados, eliminação de folhas afetadas e monitoramento constante das brotações novas — permite reduzir a pressão da praga e manter as populações sob níveis economicamente aceitáveis.
Além disso, a introdução controlada de ácaros predadores comerciais tem se mostrado uma ferramenta promissora em programas de controle biológico aplicado, contribuindo para a sustentabilidade dos pomares e para a redução do uso de acaricidas.
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