Pragas da cana-de-açúcar: Identificação, danos e estratégias de controle sustentável
A cultura da cana-de-açúcar, pilar fundamental da agroindústria nacional, enfrenta constantes desafios fitossanitários. O ataque de pragas pode comprometer severamente a produtividade, a longevidade dos canaviais e a qualidade final do produto, impactando diretamente a rentabilidade do setor. O manejo desses organismos nocivos deixou de ser uma simples reação a infestações para se tornar uma ciência aplicada, estratégica e integrada ao sistema produtivo como um todo. Compreender quais são os principais agentes causadores de danos, seus ciclos devida, os prejuízos que acarretam e, sobretudo, as formas mais eficazes e sustentáveis de controle é o primeiro passo para construir uma lavoura resiliente e produtiva.
Este artigo se propõe a ser um guia detalhado, explorando de forma aprofundada as pragas-chave que ameaçam acanavicultura, desvendando os princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e apresentando o leque de ferramentas disponíveis para o agricultor moderno, que busca aliar produtividade, sustentabilidade e saúde do agro-ecossistema.
As principais pragas: Conhecer o Inimigo é metade da batalha
O sucesso no controle de qualquer praga começa pela correta identificação e pelo entendimento preciso de sua biologia e dos danos que é capaz de causar. Na cana-de-açúcar, um conjunto de insetos se destaca por sua frequência e potencial destrutivo, exigindo atenção redobrada do produtor.
1. As brocas: Inimigas internas do colmo
As brocas representam, historicamente, o grupo de pragas mais temido na canavicultura. Seu ataque é insidioso, ocorrendo no interior do colmo, e os danos vão muito além do local perfurado.
Broca-da-Cana (Diatraea saccharalis): Esta lagarta é a mais emblemática. A fêmea da mariposa deposita seus ovos nas folhas. Ao eclodirem, as pequenas lagartas migram para a bainha foliar e, posteriormente, penetram ativamente no colmo. Lá dentro, elas abrem galerias, alimentando-se dos tecidos internos. Os prejuízos são múltiplos: a destruição direta dos tecidos interfere no fluxo de seiva, prejudicando o desenvolvimento da planta; o ‘coração morto’ (secamento do ponteiro) é um sintoma comum; a quebra do colmo na região da galeria causa tombamento e perdas na colheita; e, crucialmente, as galerias abertas funcionam como portas de entrada para fungos (como Fusarium moniliforme, causador da podridão vermelha do colmo) e bactérias, que apodrecem o tecido efermentam os açúcares, derrubando a qualidade tecnológica (ATR) do caldo. O dano é, portanto, fisiológico, físico e qualitativo.
Broca Gigante (Castnia licus) e Broca dos Rizomas (Migdolus fryanus): Enquanto a Diatraea ataca a parte aérea, estas espécies focam sua ofensiva na base da planta. A broca gigante tem lagartas de grande porte que atacam a região do colo e a base dos colmos, causando falhas severas na brotação das soqueiras e um enfraquecimento geral que predispõe ao tombamento. Já a broca dos rizomas, como o nome indica, ataca diretamente os rizomas (o sistema de propagação subterrâneo). Sua ação destrói as gemas e compromete a rebrota, levando a falhas expressivas no estande e à necessidade antecipada de reforma do canavial. O controle é particularmente difícil devido ao habitat protegido da praga.
2. A cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata): A suga silenciosa
Esta praga ganhou enorme importância nas últimas décadas, especialmente com a expansão da colheita mecanizadas em queima, que deixa uma camada de palha sobre o solo. Os adultos são pequenas cigarrinhas que depositam seus ovos na palhada. As ninfas, ao eclodirem, descem até o solo e se fixam no sistema radicular da cana, onde iniciam a sucção contínua da seiva. Para se protegerem da dessecação e de inimigos naturais, produzem uma espuma branca característica. O dano é sutil, mas cumulativo: a perda de seiva e a injeção de toxinas pela saliva do inseto debilitam radicalmente a planta. O resultado é um canavial com desenvolvimento retardado, colmos finos, menor teor de sacarose e, em infestações graves, um amarelecimento generalizado e até a morte de touceiras. A produtividade agrícola (toneladas de cana por hectare) e industrial (açúcar por tonelada de cana) são diretamente impactadas.
3. Formigas cortadeiras e cupins: Os desfolhadores e saprófagos
Estes insetos, embora menos específicos da cultura, causam prejuízos significativos, especialmente em fases críticas como o plantio e a rebrota.
Formigas Cortadeiras (Saúvas, principalmente Atta spp. e Acromyrmex spp.): Operárias destes formigueiros organizados cortam fragmentos de folhas e outros materiais vegetais para cultivar o fungo do qual se alimentam dentro do ninho. Em canaviais, a desfolha pode ser intensa, reduzindo drasticamente a área fotossintética da plantajovem, comprometendo seu estabelecimento e vigor inicial. O manejo das ‘sauveiras’ é uma atividade contínua e essencial.
Cupins: Diversas espécies de cupins podem atacar a cana. Algumas atacam as mudas (toletes) recém-plantadas, consumindo as gemas e destruindo o material de propagação. Outras atacam as raízes e o colmo enterrado de plantas estabelecidas, causando falhas no estande e enfraquecimento. Em áreas com histórico de problemas, seu controle no plantio é fundamental.
4. Bicudo da Cana (Sphenophorus levis): O inimigo subterrâneo
Trata-se de um besouro de 12–15 mm, com ciclo completo de 58 a 307 dias e até cinco gerações anuais; fêmeas ovipositam na base da touceira, as larvas perfuram rizomas e base do colmo gerando galerias internas, que comprometem o perfilhamento e provocam amarelecimento, secamento e morte de perfilhos e touceiras, com perdas que podem ultrapassar 20–30 t/ha e redução drástica da longevidade do canavial.
Colheita mecanizada sem queima aumenta a palhada no solo, favorecendo a praga; climas úmidos e anos chuvosos intensificam populações.
O manejo integrado de pragas (MIP): A estratégia central
Controlar pragas na cana-de-açúcar não se resume à aplicação de inseticidas. O MIP é uma filosofia e um conjunto de práticas que visa manter a população da praga abaixo do nível de dano econômico, utilizando todos os métodos de controle disponíveis de forma harmoniosa, com o mínimo de distúrbio ao agro-ecossistema, Sua implementação repousa sobre alguns pilares fundamentais.
Monitoramento e Amostragem Sistemática: Esta é a base de todo MIP. Não se controla o que não se mede. O monitoramento deve ser periódico e abrangente, adaptado a cada praga. Para brocas, envolve a abertura de colmos em pontos representativos do talhão para avaliar a percentagem de infestação. Para a cigarrinha, é necessário levantar a palha e observar a presença de ninfas e espuma nas raízes. Para formigas, o mapeamento ativo dos ninhos é crucial. O uso de armadilhas com feromônios para mariposas das brocas é uma ferramenta valiosa para detectar o pico de voo dos adultos. Esses dados permitem definir os níveis de ação – o ponto em que a população da praga atinge um limite a partir do qual o custo do dano esperado justifica o custo da medida de controle. Isso elimina aplicações calendarizadas, desnecessárias e onerosas.
Controle Cultural e Varietal: São medidas preventivas que tornam o ambiente menos favorável à praga. A escolha de variedades de cana com certo grau de tolerância ou resistência a pragas específicas é uma das estratégias mais eficientes e de menor custo. Práticas como a destruição eficiente de soqueiras velhas e muito infestadas (que sãofocos de reinfestação), a rotação de áreas (quando possível) e o manejo adequado da palhada (que influencia a cigarrinha) são fundamentais. A nutrição balanceada da planta também se encaixa aqui, pois uma planta bem nutrida tem maior capacidade de tolerar e se recuperar de ataques.
Controle biológico: A força dos inimigos naturais
A cana-de-açúcar é um dos maiores exemplos de sucesso no controle biológico aplicado em larga escala no mundo. Esta tática utiliza organismos vivos (inimigos naturais) para reduzir a população da praga-alvo.
Parasitoides
- O caso clássico é o uso da vespinha Cotesia flavipes no combate à broca da cana. Criadas em biofábricas, essas vespas são liberadas no canavial. A fêmea localiza a lagarta dentro do colmo (incrivelmente), e deposita seus ovos nela. As larvas do parasitoide se desenvolvem consumindo a lagarta viva, que acaba morrendo. Novas vespas emergem para repetir o ciclo. É um controle extremamente específico e sustentável.
Além da Cotesia flavipes, pesquisas recentes destacam dois agentes de alto desempenho:
- Trichogramma galloi: Microvespa que parasita ovos da broca, impedindo a eclosão das lagartas. É liberada preventivamente, reduzindo a população inicial da praga e complementando o controle larval feito por Cotesia.
- Tetrastichus howardi: Parasitoide que atua sobre pupas da broca, ampliando o espectro de controle biológico e quebrando o ciclo da praga em diferentes estágios. Sua integração ao MIP aumenta a eficácia e reduz a dependência de inseticidas.
Fungos
- Fungos Entomopatogênicos: Fungos como Metarhizium anisopliae,Beauveria bassiana e Cordyceps javanica são armas poderosas, principalmente contra a cigarrinha-das-raízes, cupins e bicudo da cana. Esses fungos,aplicados no solo ou na palha, aderem ao corpo do inseto, germinam e penetram em sua cutícula, levando-o à morte. Formulações comerciais de alta qualidade têm garantido eficácia no campo.
Nematoides
- Nematoides Entomopatogênicos: Para pragas de solo, como a broca dos rizomas, algumas espécies de cupins e bicudo da cana, nematoides do gênero Heterorhabditis e Steinernema são utilizados. Esses microscópicos vermes penetram ativamente no inseto e liberam bactérias simbiontes que causam uma infecção fatal.
O controle biológico se alinha perfeitamente com a agricultura moderna, reduzindo a dependência de inseticidas químicos, preservando os agentes benéficos já presentes no campo e não deixando resíduos nos produtos.
Controle Químico: Ferramenta preciosa a ser usada com critério
Os inseticidas químicos continuam sendo ferramentas importantes no arsenal do produtor, mas dentro do MIP, seu uso é criterioso e estratégico, nunca como primeira ou única opção. O princípio é empregá-los quando as outras táticas não forem suficientes para manter a praga abaixo do nível de dano econômico. A aplicação deve ser seletiva e bem dirigida: inseticidas no sulco de plantio para proteger mudas; aplicações dirigidas à linha ou na palha para cigarrinhas; pulverizações focadas apenas em talhões que atingiram o nível de ação. A rotação de ingredientes ativoscom diferentes modos de ação é mandatória para prevenir a seleção de populações de pragas resistentes. No caso das formigas cortadeiras, o uso estratégico de iscas formicidas, que são carregadas pelas operárias para dentro do ninho, oferece um controle eficiente e de baixo impacto ambiental.
Bioinsumos e o conceito de planta saudável: Fortalecendo as defesas naturais
Para além do controle direto das pragas, uma visão holística do manejo fitossanitário inclui o fortalecimento da própria planta. É aqui que os bioestimulantes e outros bioinsumos ganham relevância. É vital compreender que bioestimulantes não são inseticidas ou fungicidas. Eles não controlam pragas diretamente.
Sua função é modular a fisiologia da planta, melhorando sua eficiência no uso de nutrientes e água, estimulando o desenvolvimento radicular e aumentando seu vigor geral. Plantas com um sistema radicular mais robusto e profundo são mais tolerantes à seca e conseguem absorver nutrientes de forma mais eficiente. Plantas com metabolismo mais ativo e equilibrado possuem maiores reservas energéticas e, frequentemente, maior capacidade de sintetizar compostos de defesa natural. Em um cenário de estresse biótico (ataque de praga) ou abiótico (seca, calor), uma planta fisiologicamente mais ‘forte’ tem condições muito melhores de tolerar o dano, compensar a perda de tecido e se recuperar mais rapidamente.
Bioestimulantes à base de extratos de algas marinhas (como Ascophyllum nodosum), aminoácidos, substâncias húmicas e outros compostos orgânicos atuam nesse sentido. Eles integram um pacote de manejo que inclui adubação adequada, correção de solo e práticas conservacionistas. Ao promover um ambiente de solo mais saudável e uma planta mais vigorosa, o produtor cria condições que, por um lado, podem desfavorecer levemente algumas pragas e, por outro, aumentam a resiliência do canavial como um todo, tornando o sistema de produção menos vulnerável e mais estável.
O Kracht Basic Plus, um bioestimulante formado por peptídeos de cadeia curta e L-α-aminoácidos, atua como um elicitor fisiológico que estimula a planta em momentos críticos do seu desenvolvimento, como brotação, florescimento e desenvolvimento do fruto, além de períodos de estresse. Sua aplicação aumenta a atividade fotossintética, fortalece a resistência da planta a condições adversas como seca, frio e salinidade, e potencializa a eficiência dos fertilizantes. Dessa forma, Basic Plus contribui para um sistema radicular mais vigoroso e um metabolismo equilibrado, ampliando a resiliência da planta e sua capacidade de recuperação frente a desafios bióticos e abióticos.
Conclusão: Rumo a um sistema produtivo integrado e resiliente
O manejo de pragas na cana-de-açúcar contemporânea é um exercício de equilíbrio e inteligência agronômica. Não existe uma ‘bala de prata’ ou solução única. O caminho mais sólido e promissor é a integração.
O produtor bem-sucedido será aquele que conseguir conjugar:
- Conhecimento detalhado das pragas presentes em sua região.
- Monitoramento constante: para tomada de decisão baseada em dados.
- Uso prioritário de táticas preventivas (variedades adequadas, controle cultural) e curativas biológicas.
- Aplicação criteriósa e pontual do controle químico, quando absolutamente necessário.
- Investimento na saúde do solo e da planta via manejo nutricional adequado e uso de estratégias de bioestimulantes.
Esta abordagem integrada não apenas controla as pragas de forma mais eficaz e econômica no longo prazo, como também constrói agroecossistemas mais biodiversos, com menor impacto ambiental e maior sustentabilidade. O objetivo final vai além de simplesmente ‘matar insetos’. É cultivar um canavial produtivo, saudável e equilibrado, capaz de enfrentar os desafios fitossanitários e climáticos, garantindo a perenidade e a competitividade da canavicultura nacional. A proteção da lavoura é, assim, um dos pilares para uma agricultura verdadeiramente inovadora e sustentável.
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