Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis)
Nomes populares
A Anticarsia gemmatalis é amplamente conhecida como lagarta-da-soja ou lagarta-da-vagem. Em algumas regiões também é chamada de lagarta-medideira, por causa do seu movimento característico em forma de “alça” ao se deslocar. É uma das pragas mais conhecidas e estudadas da cultura da soja na América do Sul, com grande impacto econômico.
Características e Mecanismo de Ação
A lagarta-da-soja é o estágio larval de uma mariposa noturna da família Erebidae. Os adultos possuem asas anteriores de coloração marrom acinzentada e posteriores mais claras, sendo ativos à noite e atraídos por luz. As fêmeas colocam seus ovos isoladamente ou em pequenos grupos na face inferior das folhas.
As lagartas jovens têm coloração esverdeada e cabeça escura; à medida que crescem, adquirem uma tonalidade verde mais intensa, com faixas longitudinais claras e escuras ao longo do corpo. O movimento típico “mede-palmos” ocorre devido à ausência de alguns pares de falsas pernas medianas.
O mecanismo de ação dessa praga está na desfolha severa. As lagartas raspam inicialmente a epiderme das folhas e, em estágios mais avançados, consomem completamente o limbo foliar, restando apenas as nervuras principais. Em ataques intensos, chegam a se alimentar das vagens e dos grãos em formação, comprometendo diretamente o rendimento da lavoura.
Sintomas da praga
Os sintomas variam conforme a intensidade da infestação e o estádio da cultura. Nos estágios iniciais, observam-se pequenas perfurações e raspagens nas folhas jovens. Com o aumento populacional, ocorre desfolha progressiva, resultando em plantas com aspecto rendado.
Em casos severos, especialmente a partir do florescimento, a praga provoca redução drástica da área foliar, comprometendo a fotossíntese e o enchimento das vagens. Os danos tornam-se mais visíveis nas bordas e nas reboleiras centrais da lavoura, de onde a infestação se espalha.
As plantas afetadas apresentam baixo porte, vagens menores e menor número de grãos por planta. Em infestações tardias, as lagartas podem perfurar vagens, favorecendo a entrada de patógenos e aumentando as perdas qualitativas.
Ciclo de vida
O ciclo biológico de Anticarsia gemmatalis é influenciado pela temperatura e pela disponibilidade de alimento, mas em geral dura de 25 a 35 dias.
- Ovos: são esbranquiçados, arredondados e depositados na face inferior das folhas. A incubação leva de 3 a 5 dias.
- Lagarta: passa por seis ínstares, com duração de 12 a 18 dias. É nessa fase que ocorre o ataque às folhas.
- Pupa: ocorre no solo ou entre restos culturais, onde a lagarta se transforma em crisálida marrom. O período pupal dura cerca de 7 dias.
- Adulto: a mariposa vive de 8 a 12 dias, período em que realiza a postura de centenas de ovos.
Em regiões tropicais, pode haver várias gerações anuais, com sobreposição de estágios. O inverno é passado na forma de pupa, e a praga reaparece no início da estação quente, favorecida pela presença de hospedeiros alternativos, como feijão e crotalária.
Principais Culturas Afetadas
Embora seja conhecida como praga da soja, a A. gemmatalis pode atacar diversas leguminosas e algumas plantas ornamentais. As principais culturas afetadas são:
| Cultura | Região afetada | Impacto causado |
|---|---|---|
| Soja | Todas as regiões produtoras: Centro-Oeste, Sudeste, Sul, MATOPIBA | Desfolha severa, especialmente do terço médio e superior; reduz área fotossintética, compromete enchimento de grãos e pode causar perdas superiores a 30%. |
| Feijão | Sudeste, Centro-Oeste e Sul | Provoca desfolha rápida, reduz florescimento e formação de vagens, com impacto direto na produtividade. |
| Amendoim | Sudeste (SP) e áreas pontuais do Centro-Oeste | Ataque foliar intenso, reduz vigor vegetativo e pode atrasar o ciclo da cultura. |
| Outras leguminosas (ex.: ervilha, alfafa) | Regiões tropicais e subtropicais | Desfolha variável; normalmente secundária, mas pode ganhar importância em áreas com alta pressão populacional. |
Danos causados à Agricultura
Os danos econômicos da A. gemmatalis estão entre os mais relevantes para a cultura da soja. A perda de área foliar acima de 30% já compromete significativamente a produtividade, e infestações elevadas podem reduzir a produção em até 50%, dependendo do estádio da planta e da densidade populacional.
Além da redução direta na fotossíntese, há maior abortamento de flores e vagens, prejudicando a formação de grãos. Em infestações tardias, o ataque às vagens pode resultar em grãos malformados, murchos ou danificados, dificultando inclusive a colheita mecanizada.
O custo de controle químico, quando realizado de forma recorrente, também eleva o custo de produção e pode provocar desequilíbrios ecológicos, como a morte de inimigos naturais e o ressurgimento de outras pragas secundárias. Por isso, o manejo racional, com base no monitoramento e no uso de controle biológico, é essencial.
Agentes biológicos utilizados no combate
A Anticarsia gemmatalis é um exemplo clássico de sucesso no uso de controle biológico aplicado em larga escala, especialmente no Brasil.
Os principais agentes biológicos utilizados são:
- Vírus de poliedrose nuclear (AgMNPV – Anticarsia gemmatalis multiple nucleopolyhedrovirus)
Este vírusentomopatogênico é altamente específico para a lagarta-da-soja. Infecta as larvas por ingestão e se multiplica em seus tecidos, levando à morte em poucos dias. O uso comercial do vírus no Brasil resultou em milhões de hectares tratados com excelente eficiência e segurança ambiental. - Fungosentomopatogênicos (Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae)
Atuam por contato direto, infectando as lagartas e reduzindo sua mobilidade e alimentação. São aplicados por pulverização foliar e apresentam bons resultados em condições de alta umidade. - Parasitoides de ovos (Trichogramma pretiosum)
As fêmeas depositam seus ovos dentro dos ovos da lagarta-da-soja, impedindo sua eclosão. São liberadas em campo de forma programada, prevenindo o aumento populacional. - Predadores naturais (joaninhas, crisopídeose aranhas)
Atuam sobre ovos e lagartas pequenas, contribuindo para o equilíbrio biológico da lavoura.
A integração desses agentes ao Manejo Integrado de Pragas (MIP), com uso de níveis de ação baseados em monitoramento, é a forma mais eficiente e sustentável de controlar a A. gemmatalis. O uso de bioinsumos permite reduzir o uso de inseticidas químicos e preservar os inimigos naturais, mantendo o equilíbrio ecológico da lavoura.
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