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A História do Metarhizium anisopliae: Da Descoberta Científica ao Controle Biológico

O Metarhizium anisopliaeé um fungo entomopatogênico que habita naturalmente os solos e tem a capacidade de infectar e matar uma ampla variedade de insetos. Sua trajetória científica e agrícola é marcada por descobertas importantes e avanços tecnológicos que o tornaram um dos principais agentes de controle biológico utilizados no mundo.

Ilya I. Mechnikov e a Descoberta do Fungo

A descoberta do Metarhizium anisopliae está diretamente ligada ao trabalho do cientista russo Ilya I. Mechnikov (1845–1916), um dos fundadores da imunologia moderna. Em 1879, enquanto atuava como professor de zoologia na Universidade Imperial de Novorossiya (atualmente Universidade de Odessa), Mechnikov observou um besouro chamado Anisoplia austriaca infectado por um fungo que causava a chamada doença muscardina verde. Ele nomeou inicialmente o fungo como Entomophthora anisopliae, sendo posteriormente reclassificado como Metarhizium anisopliae por Sorokin em 1883.

O contexto da descoberta envolvia estudos sobre doenças de insetos e alternativas naturais para o controle de pragas agrícolas. Mechnikov estava interessado em entender como organismos microscópicos poderiam ser usados para combater infestações em lavouras, e seu trabalho com o Metarhiziumfoi um dos primeiros registros científicos de um fungo entomopatogênico. Essa pesquisa também influenciou seu aluno Isaak Krasilschik, que ajudou a aplicar o fungo em campos agrícolas, marcando o início da biotecnologia voltada à proteção de culturas.

Anisoplia austriaca: Uma Praga de Cereais na Eurásia

A Anisoplia austriaca, um besouro da família Scarabaeidae, é uma praga significativa de cereais nas regiões estepe da Europa Oriental, Ásia Menor e Irã, com destaque para áreas como o Volga, Ucrânia, Cáucaso Norte e Transcaucásia. Os adultos alimentam-se de plantas jovens de centeio, trigo e cevada, causando danos diretos ao consumir espigas e indiretos ao derrubar grãos durante a alimentação. Cada indivíduo pode destruir até 9 a 10 espigas durante seu ciclo de vida. As larvas, por sua vez, vivem no solo e se alimentam das raízes das plantas, comprometendo o desenvolvimento das lavouras. Com um ciclo de vida de dois anos, essa espécie representa um desafio constante para os agricultores da região, sendo um dos principais alvos do uso de Metarhizium anisopliae como agente de controle biológico.

Características Biológicas

O M. anisopliae é um fungo mitospórico, ou seja, reproduz-se assexuadamente por meio de conídios. Quando esses esporos entram em contato com a cutícula de um inseto, germinam e penetram no corpo do hospedeiro, causando sua morte em poucos dias. O processo é auxiliado pela produção de compostos tóxicos como as destruxinas, que têm ação inseticida.

Após a morte do inseto, o corpo pode apresentar uma coloração avermelhada e, em condições de alta umidade, desenvolve um bolor branco que se torna verde com a maturação dos esporos — fenômeno conhecido como doença muscardina verde.

Avanços na Agricultura

No Brasil, o uso agrícola do M. anisopliae começou em 1923, quando o pesquisador Pestana identificou cigarrinhas infectadas pelo fungo. Em 1955, o italiano Pietro Guagliumi realizou estudos pioneiros sobre seu uso no controle de pragas da cana-de-açúcar e pastagens.

Desde então, o fungo tem sido aplicado em milhões de hectares, combatendo pragas como:
– Cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata)
– Percevejos da soja (Nezarae Piezodorus)
Broca-da-cana (Diatraea saccharalis)
– Broca-do-café (Hypothenemus hampei)
– Cupins, gafanhotos e carrapatos

Importância Atual e Potencial Futuro

Além do controle de pragas, o M. anisopliae também promove o crescimento de plantas por meio da produção de enzimas e hormônios. Estudos recentes investigam seu uso no combate a mosquitos transmissores de malária e até na biorremediação de solos contaminados com metais pesados.

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Desenvolvimento Agronômico da Native Produtos Orgânicos/Usina São Francisco desde 1999. Engenheiro agrônomo (ESALQ/USP, 1985) com pós-graduação em engenharia econômica (1991), atuou como pesquisador na Copersucar e em usinas sucroalcooleiras antes de ingressar no Grupo Balbo em 1995. A Usina São Francisco, pioneira na produção de açúcar orgânico no Brasil, é líder global no setor, com exportação para 70 países. Seu Projeto Cana Verde — desenvolvido em 20 anos de pesquisa — elimina queimadas, agroquímicos e fertilizantes sintéticos, promovendo controle biológico, reciclagem de nutrientes e biodiversidade. Os resultados incluem maior produtividade, recuperação de recursos hídricos e fauna, além de um processo carbono neutro e socialmente justo, integrando sustentabilidade à produção industrial.

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